escrever algo

Foi na conversa com uma amiga sobre este momento melancólico e esta coisa que parece pena de não saber o que fazer de mim que ouço que há muito não escrevo, e que deveria dar-me mais às ideias escritas. De fato, desde que desisti do Facebook como lugar saudável para o debate, tenho escreito quase nada com a finalidade de expressar opinião, principalmente, organizar pensamentos e, com sorte, buscar interlocução. Não me parece que aqui ainda seja o lugar mais fértil para esse tipo de tentativa, mas é onde sinto-me a vontade para fazê-lo, é aqui onde pretendo voltar ao hábito de escrever algo.

Porque a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que quando pensamos nessa palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, “que nos apegamos à vida”, estamos equiparando-a a outra palavra mais concreta, mais atrativa, mais seguramente importante: estamos assemelhando-a ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou seguro de que isso é vida.

– Mario Benedetti, La Trégua. Tradução minha.

Birdman, Boyhood

Na época que eu escrevia críticas teatrais semanalmente, havia uma curiosa modinha de peças que tematizavam a vida, as angústias ou os percalços dos próprios artistas no processo de construção do espetáculo que ali se apresentava. Uma metalinguagem e um “falar de si” que, para mim, só funcionava quando a narrativa extrapolava as crises particulares e abordavam, também, questões que dissessem respeito à vida de mais gente, que incluísse na conversa as pessoas que ali estavam presentes para assistir. Era raro quando isso acontecia, o que fazia com que a maioria do público destas peças fosse composto pela própria classe artística ali tematizada. Havia pouco espaço para o “público civil” que não conhecia ou não pertencia àquele universo.

Birdman é um filme que fala sobre egotrip de artista. Especificamente, um ator decadente que tenta fazer a obra de sua vida, para que seja eternizado como mais do que apenas um personagem de blockbuster. Ao longo de todo o filme, é evidente que importa menos a este personagem a obra que está produzindo, ou a forma de diálogo com o público, ou sobre que tema se fala. Isso tudo é meio, é acessório. O que importa é que o resultado grude em sua reputação, salvando-a. Além do roteiro rápido e inteligente, o grande charme do filme está, também, numa metalinguagem: o fato do protagonista ser, ele mesmo, um ator que se consagrou como um super-herói blockbuster e nunca mais protagonizou nada tão notável quanto este estigma.

No entanto, me incomoda a maneira como o formato do filme (planos-sequência e uma onipresente trilha de percussão) está presente para “enfeitar” a narrativa, e não para ajudar a contar a história. São elementos muito marcantes, muito cheios de personalidade mas, conceitualmente, não seriam necessários para compor a mesma narrativa com a mesma eficiência. A câmera acompanhando os acontecimentos em tempo real e a trilha sonora espertinha parecem escolhas estéticas que funcionam aqui da mesma forma como funcionariam num filme de guerra, num filme policial ou num filme alternativo. É extremamente bem executado, mas me soa mais como virtuose “para ficar mais bonito” do que escolhas estéticas em nome de algum conceito de verdade proposto pelo diretor. É parecido com quando, no teatro, grupos usavam projeções, música ao vivo, iluminação sofisticada e tudo mais – sendo que nenhum destes elementos significasse alguma informação adicional sobre o que tinha-se a intenção de dizer no palco. Escolhia-se tudo porque “ficaria bonito”, ainda que significasse muito pouco.

Então, Boyhood, ao contrário, é puro conceito. É um filme sobre o tempo, e o que mostra-se na tela é o tempo passando. Não o tempo para um personagem, mas o tempo pra todo mundo. Está lá, materializado no protagonista e sua família, mas o que o filme revela é como o tempo passa e as coisas mudam. O filme mostra a primeira eleição de Obama, mostra fenômenos da cultura pop, como os primeiros sucessos de Britney Spears e lançamento de livros de Harry Potter. Mostra a tecnologia, os hábitos de consumo, tudo isso mudando ao longo do tempo. As pessoas envelhecendo de verdade, e não com a ajuda de maquiagens hollywoodianas. Não é como um filme comum de ficção que apela para uma indústria da fantasia para reconstituir o passado – neste aspecto, é uma narrativa ficcional que traz, embutida, uma espécie de documentário sutil, que mostra um presente real, paralelo e não ficcional, que vai ano a ano se convertendo em passado.

A maioria dos comentários negativos que vi sobre Boyhood são, sobretudo, de quem achou o filme “chato”. E eu super entendo, porque na narrativa acontece realmente muito pouco, é uma história bastante simples. Não tem clímax, não tem reviravoltas, não tem surpresas. A narrativa é banal, comum. Se olharmos o resultado e ignorarmos como ele foi feito, temos um filme sobre a vida real de uma família média, e não existe como a vida real de uma família média ser excitante.

Mas temos um problema sério de ignorar como são feitas as coisas que consumimos. Seja com roupas, seja com eletrônicos, seja com comida, seja com cinema. Isso aliena a gente de ter opiniões críticas ou leituras mais amplas sobre aquilo que chega até nós. Olhar para Boyhood e ignorar a complexidade e a ousadia como ele foi realizado é injusto porque o que há de belo ali não é o resultado, mas um processo artesanal, inventivo, inédito, que se abre para que nós espectadores possamos enxergar esse tempo passando, enxergar como o roteiro é costurado, nos localizar temporalmente ao longo da história daquela família que é filmada em tempo real – permitindo pensar “o que eu estava fazendo enquanto isso acontecia?”.

Se em Birdman a forma do filme está deslocada do conteúdo que está sendo contado, em Boyhood a forma e o conteúdo são uma coisa só, e funcionam provocando uma bela reflexão sobre como/de que/para que o cinema é ou pode ser feito. Não acho errado achar o filme chato. Mas acho bem injusto negar a Boyhood a importância que ele merece na história do cinema.

Pequenos Golpes #1

“O legível se transforma em memorável: Barthes lê Proust no texto de Stendhal; o espectador lê a paisagem de sua infância na reportagem de atualidades. A fina película do escrito se torna um remover de camadas, um jogo de espaços. Um mundo diferente (o do leitor) se introduz no lugar do autor.

Esta mutação torna o texto habitável, à maneira de um apartamento alugado. Ela transforma a propriedade do outro em um lugar tomado de empréstimo, por alguns instantes, por um passante. Os locatários efetuam uma mudança semelhante no apartamento que mobiliam com seus gestos e recordações; os locutores, na língua em que fazem deslizar as mensagens de sua língua materna e, pelo sotaque, por ‘rodeios'(ou giros) próprios etc., a sua própria história; os pedestres, nas ruas por onde fazem caminhar as florestas de seus desejos e interesses.”

– Michel de Certeau, “A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de Fazer”.

Sair do Facebook

Já fazia muito tempo que eu tinha esse desejo. Apertar um botão e zup, morrer, fazer a curva da estrada, não ser mais visto por estas bandas. Gosto de Twitter, gosto de blog, não gosto de Facebook. Gosto de ver postagens de quem me interessa, não de todo mundo que eu conheço. Gosto de ouvir a opinião e as discordâncias de quem tem alguma afinidade comigo. Não significa que só quero ler quem concorda, só não quero saber o que minha tia ou o colega de ensino fundamental acha sobre política, religião, sociedade.

Conversas na vida real se estabelecem porque algum motivo ou interesse mútuo aproxima as pessoas em determinado momento de suas vidas. Conversas no Facebook se estabelecem porque a rede parte da premissa que todo mundo tem que ver todo mundo que conhece. Isso é um saco. Nervos e diferenças se afloram – às vezes, de forma surpreendente, mas na maioria das vezes é de forma vergonhosa (esse ano eleitoral que o diga). Eu realmente não estou mais a fim de ocultar algumas opiniões obtusas de pessoas com quem nunca tive mais do que 15 minutos de conversa. E a dissintonia não tem apenas a ver com as ideias debatidas: tem também os convites para jogos (sério mesmo que ainda tem gente convidando pro Candy Crush?), convites para eventos (nossa senhora das bandas cover, rogai por nós!), pedidos para dar “like” em páginas de tudo quanto é tipo – todo tipo de incômodo cuja frequência seria insuportável na vida real, mas que na vida virtual nós toleramos sem perceber. Não vou entrar no mérito do quanto as redes parecem nos deixar mais amargos, também – acho que esse texto fala por si só.

Há ainda dois aspectos técnicos que pesam. O primeiro deles é que eu gosto de ler as informações cronologicamente e na íntegra (como ocorre com blogs, RSS e Twitter). Não quero que uma postagem de ontem tenha mais relevância na minha leitura do que uma notícia que acabou de ser divulgada. Não quero que algoritmos obscuros “escolham” o que é prioritário que eu leia, esse critério quem define sou eu. O outro aspecto diz respeito a privacidade. Me recuso a instalar um aplicativo adicional para receber as mensagens (que antes eu recebia tranquilamente em um único aplicativo) para autorizar acesso ainda mais ilimitado a meus dados. Aliás, eu não tenho mais o aplicativo do Facebook no meu celular depois que descobri que em meu histórico do Facebook constavam telefones de contatos que eu nunca havia incluído na rede (ou seja, foram coletados de meu celular sem minha requisição). Não tenho nada a esconder e sei que várias outras empresas também o fazem (oi, Google!), mas isso não significa que eu não me importe com isso.

Há, por fim, a questão do vício. Estou cansado da mania narcisista e inútil de conferir várias vezes por dia se há notificações de novos comentários e likes – porque isso requer uma visitinha rápida, que puxa uma bisbilhotada nas postagens mais recentes e, sem perceber, mais uma vez me vejo perdendo muito tempo da minha vida na frente do computador. Basta uma postagenzinha, um compartilhamento de algo engraçado ou uma notícia que considere relevante para reativar todo o ciclo de conferir interações, responder a algumas delas, olhar a timeline e perceber mais uma vez que estou perdendo tempo demais na frente do computador. E como se trata de um vício (não muito diferente do alcoolismo ou do tabagismo, nestes aspectos), não é algo que simplesmente possa-se dizer “chega, a partir de hoje vou me controlar mais”, é preciso tomar medidas mais radicais.

No entanto, um eventual suicídio virtual teria um custo demasiadamente alto. Não estou disposto a perder contato com amigos distantes, principalmente os de outros países, que só consigo ver em viagens e com quem me comunico somente pelo Facebook. Não estou disposto a sair dos fóruns onde discutem-se coisas práticas do dia a dia (que dia é a prova? quando é a próxima reunião?). É importante saber o aniversário das pessoas, e a rede tornou-se o melhor lugar para estar atento a isso. Não quero e não posso ficar isolado dos amigos que assumiram o Facebook como seu instant messenger oficial. Há, ainda, os projetos em que me envolvo e que requerem um trabalho de administração de conteúdo na rede. Ou simplesmente é importante estar dentro da rede para buscar referências, contatos, ideias. Todos estes aspectos são os “reféns” que me impedem de simplesmente acabar com tudo – e é em função disso que acabei adotando uma estratégia intermediária.

Portanto, continuo por lá – mas acessando bem menos, sem postar, evitando comentar e escolhendo o conteúdo que ainda me aparece. Facebook, para mim, servirá como uma bela agenda de contatos, site de fóruns e ferramenta para troca eventual de mensagens – mas para falar comigo de forma mais rápida, recomendo e-mail, Whatsapp, Hangouts, SMS ou telefone. Para postagens do dia a dia, continuo firme e forte no Twitter. Para fotos, tem o Flickr, o Instagram e o site pessoal que estou fazendo.

Obviamente, eu não vou sumir. Só pretendo tornar minha vida mais prática, mesmo. Talvez até volte em breve, mas hoje prefiro usar meu tempo onde bate sol ou onde tem cerveja.

Refundação

Ninguém mais está vivo dentre os que presenciaram as festividades de lançamento da pedra fundamental da velha cidade, mas ainda é comemorado anualmente aquele dia tão cheio de esperança e votos de prosperidade. Desde então, muito se ergueu – das grandes construções em concreto até as frágeis residências improvisadas de seu entorno; muito se sobrepôs; muito se destruiu. Mas mais do que as bolas de demolição, os cupins implacáveis e as más gestões dos prefeitos, o que mais contribuiu para a ruína da velha cidade foi o tédio, a banalização da vida cotidiana e uma repentina e destruidora sensação de que viver daquele jeito simplesmente não tinha mais graça ou sentido. Subiram as taxas de suicídio, de migração para outros lugares, e as taxas cobradas pelos psicólogos e as dádivas cobradas pelos líderes religiosos em troca da redenção de quem insistia em viver ali – por necessidade, insistência ou conveniência. Os debates tornaram-se enfadonhos e improdutivos, as conversas repetitivas, as propostas, inócuas. Tudo era fumaça, cansaço e esgotamento. Chegado, então, o momento em que essa complexa meca estética, afetiva e cognitiva precisa ser fundada novamente.

Mundos paralelos

Todo mundo da faculdade se inscreveu naquele programa de estágio. Eu, aos 19 anos e sem muita certeza do que queria da vida (ainda não tenho), também preenchi o cadastro. Os colegas foram sendo eliminados, e eu consegui uma das vagas no marketing daquela desejada multinacional.

Além do meu primeiro contato efetivo com o mundo corporativo, foi talvez a experiência de maior contato com pessoas, hábitos, conversas e interesses muito distantes de minha realidade até então. Os colegas mais próximos falavam de balada, carro e praia; eu, de cinema, arte e tecnologia.

Aprendi muito, me frustrei muito. Ao fim de um ano, estava com vários sintomas de depressão e uma vontade imensa de experimentar fazer outra coisa antes de assumir que era aquilo que eu queria seguir fazendo. Encarei um salário 80% menor em ambientes menos formais e mais criativos e dinâmicos. Na época, Orkut ainda era novidade, as redes sociais mal existiam e acabei perdendo contato com todos do trabalho anterior.

Alguns anos depois, passei por um desses colegas da multinacional no corredor de um shopping, e instantaneamente me dei conta que não queria conversar com ninguém de lá, porque não teria nenhum assunto em comum. De calça xadrez, tênis all-star, cabeça raspada e barba grande, não precisei me esquivar para não precisar falar das amenidades enfadonhas que certamente dominariam o papo: não havia a menor chance dele, que só conhecia minha versão com cabelo, sem barba e usando roupa social, me reconhecer.

Essa semana, por casualidade, apareceu uma pessoa que trabalhava conosco no meu Facebook. Cliquei no perfil e vi, em seus amigos, várias das pessoas com quem eu convivia diariamente. Fui pulando de perfil em perfil, olhando não apenas o que essas pessoas andavam fazendo, mas principalmente, se havia amigos em comum.

Considerando que eu orbito por vários grupos razoavelmente articulados (jornalistas, publicitários, ativistas, artistas), quase sempre há algum conhecido em comum entre as pessoas cujos perfis eu eventualmente acabo acessando. Neste caso, não havia ninguém em comum, em nenhum dos perfis que visitei. Os assuntos abordados e opiniões expostas também passavam muito longe do meu leque de interesses, afinidades ou prioridades. O meu mundo social acontecia totalmente em paralelo com o daquelas pessoas – ainda que morássemos na mesma cidade, pertencêssemos a alguns estratos sociais semelhantes e trabalhássemos em segmentos bastante próximos.

Pensando nisso e fazendo um breve balanço das pessoas que conheci ao optar por uma ruptura, percebi que o universo social que se compôs nos 10 anos seguintes tornou minha vida muito mais interessante, diversa, divertida, e muito mais cheia de sentidos do que se eu tivesse continuado na estabilidade e segurança da empresa dos sonhos.

Esse tipo de análise é interessante para que eu possa me lembrar, sempre, que um mundo inteiro pode se abrir se eu fizer escolhas que não sejam em nome da estabilidade ou da segurança. Mais possibilidades e mais sentido sempre serão mais abundantes fora da rotina e dos padrões de vida reproduzidos de forma automática. Basta estar disposto e aberto a essas possibilidades de sentido.

É uma ressaca

É uma ressaca. Daquilo que vicia, daquilo que nos consome, daquilo que nos impede de saber a hora de dizer não. É uma ressaca da bebedeira que começou há mais de uma década, nunca parou totalmente e ainda deixa sequelas, dores de cabeça, tontura, falta de vontade, vício. É uma ressaca daquelas que tiram a vontade de fazer outras coisas, porque o organismo pede para ficar na defensiva. O corpo pede por menos, a vontade pede por mais. É uma ressaca que faz pensar o tempo todo no que faz bem, no que faz mal; que faz dar mais importância para cada momento sozinho, para cada raro lapso de silêncio. É uma ressaca que faz querer buscar se cuidar melhor, se mutilar menos, se permitir mais – ainda que isso não se concretize de fato. É uma ressaca que faz aumentar a cautela. É uma ressaca que aumenta as preguiças – o que é um problema quando não se quer entregue totalmente a elas. É uma ressaca que dá um novo significado ao dia seguinte, às horas de sono, aos momentos de sobriedade e de controle. É uma ressaca que congela e acovarda. É uma ressaca que torcemos para que passe logo, também na torcida para que seja a última – e que sirva de lição para que nunca mais nos entreguemos tão cegamente ao que nos consome tanto e nos faz tão mal. É uma ressaca necessária.

O presente e o aniversário

Apesar de não ser nada místico, gosto de criar algumas simbologias e ritos pessoais que ajudam a marcar na memória e no tempo etapas, mudanças, decisões da vida. São pequenos gestos que funcionam como lembretes afetivos, para que estas etapas não sejam esquecidas ou atropeladas pelo pragmatismo que em geral dita o ritmo e as razões do que faço.

Por esse motivo, pela primeira vez dei alguma importância ao meu aniversário, e usei a chegada dos 30 anos como pretexto para criar um desses pontos de referência para a vida. Nos últimos 10 anos, busquei atividades que criassem algum tipo de fissura na lógica casa-trabalho-casa-trabalho, mas por mais que eu me envolvesse em coisas bem diversas, a rotina do horário comercial ainda se impunha, evidenciando a quantidade de tempo morto que ela traz como premissa. Foi numa viagem longa, aos 28, que defini que a virada dos 30 deveria ser um momento de ruptura, de experimentação e de risco – para dar um “reset” no meu ritmo interno e para experimentar outras formas de estar no mundo.

Hoje foi o dia do meu aniversário de 30. O sol nasceu às 9h48 e se pôs às 18h01. Saí cedo, enfrentei o vento, comprei comida e fui caminhando, seguindo uma das muitas trilhas para o meio da montanha em El Chaltén. Entre ida e volta, subidas e descidas, foram mais de 20km que consumiram muitas das poucas horas claras do dia. Por causa das nuvens, não consegui ver o Cerro Torre, o pico pontiagudo ao final deste caminho – o que não foi um problema, dada a incrível beleza de todo o trajeto, ainda que entristecido pelo inverno (na primavera isso deve ser escandalosamente bonito).

Em quase nenhum momento me lembrei que era meu aniversário, ao longo do dia não conversei com quase ninguém (só um pouco com os irlandeses gente-boa que encontrei na volta), e em quase nenhum momento eu pensei no futuro, ou no passado, ou nos problemas, ou nas contas, ou na faculdade, ou em trabalho. Tudo era sereno. Não havia uma cidade, ou uma leitura, ou uma prova, ou uma música, ou uma rede social, ou um filme, ou uma conta para pagar, ou um celular me estimulando. Não havia um guia, uma excursão, uma paisagem alterada, lojinhas de souvenirs ou gente vendendo coisas. Não havia gente. Havia o silêncio, o vento, a paisagem que mudava a todo instante, as montanhas cobertas de neve, um lago congelado e um glaciar. Também havia eu, minúsculo, tornando um único dia meu mais especial por estar ali, naquele lugar onde todos os dias são bonitos e nenhum é especial.

cerro_torre